Um grupo de lobby apoiado pela Hyperliquid e a gestora de venture capital cripto Paradigm apresentaram conjuntamente um parecer aos reguladores dos EUA, pedindo a revisão de uma regra proposta de combate à lavagem de dinheiro (AML). Segundo reportagem do The Block (9 de junho de 2026), a principal preocupação de ambas as partes é que, se o rascunho for aprovado com a redação atual, ele poderá restringir a livre circulação de stablecoins descentralizadas em blockchains públicas. Não se trata de uma lei já em vigor, mas de uma regra proposta ainda em fase de consulta pública — as palavras-chave aqui são “proposta” e “blockchain pública”.
Análise editorial: o que isso significa para usuários de cartões USDT
Vamos direto ao ponto: para quem já possui um cartão U, não há nada a fazer no momento.
O ponto de controvérsia desta notícia está na combinação “stablecoin descentralizada + circulação em blockchain pública”, e o caminho do dinheiro da grande maioria dos usuários de cartões virtuais USDT é “corretora centralizada / carteira custodiada → endereço de depósito do emissor do cartão → cartão”. Cada etapa desse caminho já é uma entidade regulada por KYC e AML, fora da zona cinzenta que este rascunho discute.
Especificamente sobre os cartões:
- Modelo custodiado (Bybit Card, cartões de corretoras) — o usuário completa o KYC dentro da corretora, e as transferências on-chain são feitas pela plataforma. O alvo deste rascunho não é o usuário final, mas a camada de protocolo, então a probabilidade de impacto sobre esse tipo de cartão é baixa.
- Cartões agregadores com depósito multichain (a variante Asia Elite do MPCard suporta depósito de ₮ em várias blockchains públicas) — em teoria, um endurecimento na “circulação de USDT em blockchains públicas” poderia afetar as chains disponíveis para depósito, mas isso depende de a regra final mirar os endereços de recebimento do emissor do cartão, e não transferências em blockchain pública de forma genérica.
- Cartões nativos on-chain (soluções como o RedotPay, com ênfase em autocustódia on-chain) — este é o grupo que mais deve acompanhar os desdobramentos da regra, já que seu diferencial é justamente a “conexão direta com a blockchain pública”.
Expectativa de prazos: em 7 dias não haverá mudanças; em 30 dias, acompanhar se a FinCEN prorroga ou encerra o período de consulta pública; em 90 dias é que poderá ficar claro se a regra avança para a próxima etapa ou é revisada. O processo regulatório dos EUA, do rascunho até a entrada em vigor, costuma se medir em trimestres ou até anos.
Comparação histórica: em que isso difere de 2023 e 2024
Colocar este episódio numa linha do tempo ajuda a esclarecer as coisas.
- Desancoragem do USDC em 2023: foi um evento de risco de mercado (exposição das reservas da Circle no Silicon Valley Bank), que abalou a confiança na conversibilidade da própria stablecoin, sem relação com redação regulatória. Este caso atual é inteiramente uma disputa no plano das políticas públicas — as reservas e a conversibilidade do próprio USDT não foram questionadas em nenhum momento.
- Fiscalização da SEC contra corretoras em 2024: mirava a definição de “se o token é um valor mobiliário”, com foco na listagem em corretoras. O foco atual está na camada de transferências on-chain e nos protocolos descentralizados, mais próximo da lógica de “mirar o protocolo, não o indivíduo” usada pela OFAC ao sancionar o Tornado Cash em 2022.
- Semelhança: em ambos os casos, os reguladores tentam colocar um portão de controle sobre a movimentação de recursos on-chain; diferença: desta vez a proposta ainda está na fase de rascunho e sofreu oposição direta de lobby de instituições de peso como a Paradigm — historicamente, rascunhos derrubados ou substancialmente alterados durante a consulta pública não são raros.
Em outras palavras, trata-se de um braço de ferro político ainda sem desfecho, não um fato consumado. Tratar isso como um evento do tipo “impacto imediato no saldo da carteira”, como na desancoragem do USDC, é uma leitura equivocada.
Fronteiras regulatórias: proibição explícita vs. zona cinzenta
No momento, é preciso separar bem essas fronteiras:
- Explicitamente permitido: depositar USDT em um cartão virtual por meio de um emissor licenciado, após completar o KYC — este é o caminho de conformidade regulado, e não é afetado por este rascunho. Usuários nos EUA podem consultar as diretrizes de conformidade nos EUA para entender o quadro das entidades licenciadas.
- Zona cinzenta: uso de stablecoins totalmente autocustodiado, com conexão direta à blockchain pública, contornando qualquer ponto de KYC — é exatamente essa a área que a regra proposta pretende regular, e é a “circulação sem permissão” que a Paradigm e o grupo Hyperliquid querem defender.
- Explicitamente proibido: lavagem de recursos por meio de endereços sancionados ou protocolos de mixagem — isso já foi enquadrado como área proibida pela OFAC desde 2022 e não faz parte do conteúdo novo desta proposta.
Para o usuário comum de cartão U, o caminho seguido é o da primeira categoria, em conformidade — a revisão ou não da regra não muda a forma como você usa o cartão hoje. Os quadros regulatórios locais de Hongkong e Singapura estão detalhados em Conformidade em Hongkong e Conformidade em Singapura; por ora, nenhum dos dois avançou com propostas semelhantes de restrição a blockchains públicas.
Próximos marcos a observar
- Prazo final da consulta pública da FinCEN — isso determina se as objeções apresentadas serão incorporadas. Recomenda-se acompanhar a página de anúncios regulatórios no site oficial da FinCEN.
- Se o rascunho avança para a fase de “regra final” — este é o passo crítico de “proposta” para “obrigatória”, geralmente acompanhado de um período de transição.
- Posicionamento oficial de emissores de reservas como Tether e Circle — se os principais emissores de stablecoins se manifestarem, isso afetará diretamente as expectativas sobre os canais de emissão de cartões.
- Se os principais emissores de cartões ajustam as chains disponíveis para depósito — se algum cartão de repente reduzir as blockchains públicas suportadas, esse será o sinal concreto de que o impacto da regra chegou ao usuário final.
Recomendação editorial
- Usuários que já possuem qualquer cartão virtual USDT: nenhuma ação é necessária. Esta é uma disputa sobre um rascunho, não uma crise de conversibilidade — o saldo do seu cartão e a forma de depósito continuam os mesmos.
- Usuários planejando solicitar um novo cartão: priorize soluções com caminho de depósito licenciado e via KYC (como a avaliação do MPCard ou o Bybit Card, ligado a corretora), pois nesses casos a cadeia de transmissão de qualquer impacto regulatório é a mais longa e indireta. Para comparar opções lado a lado, veja os cinco melhores cartões U de 2026.
- Usuários que dependem de um caminho totalmente autocustodiado on-chain: este é o único grupo que precisa monitorar o assunto de perto — adicione o prazo final da consulta da FinCEN ao calendário e só decida sobre eventuais ajustes de rota após a redação final ser conhecida.
- O que não fazer: não entre em pânico e converta USDT em outros ativos por causa de uma notícia sobre um rascunho, e não acredite em nenhuma alegação exagerada de que “o USDT em blockchain pública será totalmente banido” — a redação da proposta está longe disso.
Vamos atualizar este artigo assim que a regra avançar para a próxima fase ou os principais emissores de cartões ajustarem suas chains de depósito.