O Panamá é uma das poucas economias da América Latina totalmente dolarizadas, o que lhe confere uma vantagem natural em relação a cartões USDT que outros países não têm: liquidação em dólar no cartão = liquidação em moeda local, com perda cambial praticamente inexistente. Mas, no plano regulatório, o Panamá não incorporou os ativos cripto em lei, como fez El Salvador — o projeto de lei cripto aprovado em 2022 foi vetado pelo presidente, e até hoje não há legislação específica. Este artigo é para quem vive, trabalha ou reside de forma prolongada no Panamá, esclarecendo o que pode ser usado agora e o que exige atenção.
Panorama: dolarização + zona cinzenta regulatória
A moeda local do Panamá, o Balboa (PAB), é atrelada ao dólar na paridade 1:1, e o mercado circula quase exclusivamente com cédulas em dólar. Para usuários de cartões USDT, isso significa que um cartão virtual internacional contabilizado em dólar (USD) oferece uma experiência de preço praticamente idêntica ao passar no supermercado na Cidade do Panamá ou em Miami — sem a conversão adicional “USD → PAB”.
No plano regulatório, o Panamá não proíbe indivíduos de possuir ou usar ativos cripto, mas também não tem uma lei específica que reconheça seu status como moeda legal. O uso cotidiano de cartões USDT está em uma zona cinzenta “nem proibida, nem legislada”, e classificamos o nível de risco como médio (medium).
Regulação e legalidade
Em abril de 2022, a Assembleia Nacional do Panamá aprovou o que ficou conhecido como “Bitcoin Law”, o Proyecto de Ley 697, com a intenção de fornecer um marco de uso para ativos cripto. Mas, no mesmo ano, o presidente Cortizo exerceu o veto, alegando questões de conformidade com AML/FATF e falta de coordenação com o Ministério da Fazenda. O projeto de lei não entrou em vigor até hoje.
A partir de 2023, a Superintendência do Mercado de Valores do Panamá (SMV) começou a promover um sandbox de fintech, oferecendo um canal de testes controlado para negócios relacionados a cripto. Este é o sinal oficial mais ativo até o momento, mas sandbox não equivale a legalização plena — vale apenas para as instituições selecionadas, não emite licenças para portadores de cartão do público em geral.
Na prática:
- Não há proibição explícita para indivíduos que possuem USDT ou usam cartões USDT emitidos internacionalmente para consumo.
- Os bancos locais (regulados pela SBP) ainda são cautelosos com remessas relacionadas a cripto, e alguns podem congelar ou devolver transferências sob justificativa de “revisão de origem”.
- Transações suspeitas de lavagem de dinheiro ou evasão de sanções acionam atenção conjunta da DGI e da SBP.
Para uma comparação regulatória mais detalhada, veja o guia para usuários do Brasil — ambos os países se encontram em situação semelhante de “sem proibição, mas sem lei clara”.
Cartões USDT disponíveis
Diante do panorama atual para usuários no Panamá, a redação recomenda atualmente estes três cartões internacionais como opções viáveis:
- Crypto.com Visa: boa aceitação de KYC na América Latina, suporta Apple Pay / Google Pay, e a liquidação em dólar se adapta naturalmente ao cenário panamenho.
- Wirex: carteira multimoeda + cartão, com USDT e USDC disponíveis para consumo direto.
- BitPay Card: cartão de consumo em BTC/stablecoins, emitido nos EUA, mais adequado para quem tem residência americana ou múltiplas identidades.
Vale notar: nenhum dos três é um “cartão local panamenho” — os emissores estão nos EUA ou na Europa, o que significa que a resolução de disputas relacionadas ao cartão segue a legislação do local de emissão.
Se sua prioridade são as taxas, confira nosso levantamento de cartões com taxas mais baixas.
Depósito e pagamentos locais
Os caminhos de depósito mais comuns para usuários no Panamá:
- Depósito on-chain via exchanges internacionais: comprar USDT em Binance, Bybit, Kraken etc. e transferir via TRC20 ou ERC20 para a carteira do cartão. Este é o caminho mais comum e estável — veja os passos detalhados no guia de depósito de USDT passo a passo.
- OTC local: a Cidade do Panamá e David têm círculos ativos de P2P e OTC, permitindo trocar dólares em espécie diretamente por USDT. A vantagem é a rapidez, mas o risco de contraparte e o risco de conformidade são mais altos.
- Transferência bancária local → exchange no exterior: viável, porém lenta, e os bancos locais são sensíveis a rótulos “relacionados a cripto”, o que pode resultar em devolução da transferência.
Quanto aos hábitos de pagamento locais, a taxa de aceitação de Visa/Mastercard é alta na Cidade do Panamá, com boa aceitação em lojas de conveniência e restaurantes; nas áreas rurais, o dinheiro em espécie ainda predomina. Cartões USDT são plenamente suficientes nas cidades — para o interior, recomenda-se levar dinheiro em espécie.
Para leitores ainda não familiarizados com o conceito básico de “cartão U”, veja primeiro o que é um cartão U.
Tratamento tributário
O Panamá adota o sistema de tributação territorial (territorial taxation): em princípio, só é tributada a renda originada dentro do território panamenho, e a renda de origem estrangeira geralmente não sofre incidência de imposto de renda. Essa é a razão central pela qual o Panamá atrai nômades digitais e trabalhadores remotos.
Mas, especificamente em relação a ativos cripto:
- A DGI não publicou regras tributárias específicas para transações cripto de pessoas físicas.
- O simples ato de gastar com cartão USDT (ou seja, “gastar dinheiro”) não é atualmente tributado de forma independente.
- Se você opera um negócio no Panamá recebendo pagamentos em cripto, isso pode ser classificado como renda de origem local, exigindo declaração.
Isto não é aconselhamento jurídico ou tributário — consulte um contador ou advogado local, especialmente se você está solicitando residência permanente, Friendly Nations Visa ou Qualified Investor Visa.
Recomendações da redação
Faça:
- Priorize cartões internacionais com KYC completo e emissor claramente identificado — Crypto.com Visa ou Wirex são as duas opções atualmente mais estáveis.
- Aproveite a vantagem da dolarização, liquidando tudo em dólar (USD) e evitando qualquer etapa intermediária de “conversão para PAB”.
- Para depósitos de valor alto, priorize o caminho on-chain via exchange, mantendo registros completos das transações — caso uma futura legislação exija retrospectiva, você terá comprovação.
Não faça:
- Não escreva na descrição da transferência bancária local termos como “crypto”, “USDT” ou “Binance” — isso aumenta muito a probabilidade de acionar revisão.
- Não trate o OTC em espécie como canal principal de depósito — o risco de contraparte e de conformidade não valem a pena para economizar um ou dois pontos percentuais, especialmente atente-se aos riscos potenciais de canais sem KYC e ao risco de listas de sanções.
- Não presuma que aquela “Bitcoin Law” de 2022 está em vigor — ela foi vetada, e tomar decisões com base em uma lei que expirou pode gerar avaliação equivocada dos limites de conformidade.
A posição do Panamá é peculiar: economicamente totalmente dolarizado, tributariamente favorável para renda de origem estrangeira, mas sem marco legal para cripto. Para o portador de cartão individual, este é um mercado onde a praticidade supera em muito a clareza jurídica — o cartão funciona, o consumo flui bem, e a perda cambial é praticamente nula, mas é preciso ter consciência de que se está pisando em zona cinzenta, não em terreno consolidado.